terça-feira, 14 de maio de 2013

Lançamentos da semana



O diabo no corpo, de Raymond Radiguet (Trad. Paulo César de Souza)
Em meio ao sofrimento das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a jovem esposa de um soldado em batalha inicia um caso com um adolescente de dezesseis anos, o narrador deste O diabo no corpo. O envolvimento entre os dois vai se tornando mais sério. Ela engravida. O falatório começa a se espalhar pela vizinhança. O cerco se fecha sobre os amantes. Um final trágico se anuncia. Quando publicado pela primeira vez, em 1923, o livro de estreia de Raymond Radiguet causou sensação nos círculos letrados de Paris — em parte por se tratar da produção de um prodígio, escrita quando seu autor tinha dezessete anos, em parte porque foi considerado uma obra-prima por autores como Jean Cocteau. Com tradução e posfácio de Paulo César de Souza, esta novela foi o único sucesso que Radiguet conheceu em vida. O autor faleceu poucos meses depois, de febre tifoide, aos vinte anos de idade.

Dix & Bisteca, de Rita Vidal e Alexandre Barbosa de Souza
Bisteca tem cor de caramelo, é vegetariano e passa horas a fio contemplando o vazio. Dix é preto, carnívoro e adora comer a ponta emborrachada dos grampos de cabelo. Do convívio apaixonado com os dois gatos e da observação fina de tantas manias curiosas nasceu este livro, que nos apresenta os dois felinos a partir de poemas inesperados e lindas ilustrações feitas com antigos papéis de parede.

Nova antologia pessoal, de Jorge Luis Borges (Trad. Davi Arrigucci Jr, Heloisa Jahn, Josely Vianna Baptista)
Nova antologia pessoal foi organizada pelo próprio Borges e publicada pela primeira vez em 1968. Em sua vasta atividade crítica, a organização de inúmeras antologias teve papel decisivo. Por meio delas, com os achados e a seleção de sua alta inteligência, fecundou seu ambiente literário, abrindo-o para traduções inéditas. Suscitou o diálogo com textos raros, desconhecidos ou reinventados; renovou o repertório dos autores considerados clássicos. Como antologista da própria obra, Borges não foi menos rigoroso. Tinha autocrítica severa com relação aos poemas da primeira juventude e vivia a reescrever os próprios textos. Esse trabalho pode ser visto na Antologia pessoal, originalmente de 1961, publicada pela Companhia das Letras na coleção Biblioteca Borges em 2008, e agora na Nova antologia pessoal. Mais generosa que a primeira, a Nova antologia traz um volume maior de textos e assuntos. A perplexidade metafísica, a memória dos mortos que se perpetua nos poemas, as imagens cifradas de uma língua pretérita, a linguagem, a pátria, o destino paradoxal dos poetas — esses e vários outros temas são nela recorrentes. A exemplo da anterior, esta antologia forma um caleidoscópio, em que pedacinhos de vidro recombináveis fantasiam as múltiplas faces da totalidade.

Os mortos, de James Joyce (Trad. Caetano W. Galindo)
Para um explorador da alma humana como James Joyce, o amor jamais poderia deixar de ser um tema de interesse. E, como não poderia deixar de ser no caso de um autor capaz de esmiuçar como ninguém a vida interior de seus personagens, suas visões sobre a experiência amorosa se descortinam por meio de reflexões reveladoras, suas tão comentadas epifanias. Como a de Gabriel Conroy — de “Os mortos”, conto que encerra a coletânea Dublinenses —, que numa festa descobre fatos novos sobre a vida afetiva pregressa da esposa e a partir de então começa a repensar sua relação conjugal e até mesmo seu próprio conceito de amor. Ou a epifania do protagonista de “Arábias”, outro conto do mesmo volume, um garoto que, incapaz de encontrar num bazar um presente para a menina por quem é apaixonado, descobre a falsidade por trás da ideia da idealização do amor romântico. Ou ainda a do célebre “sim” de Molly Bloom ao final de seu monólogo no último capítulo de Ulysses — um dos solilóquios mais lidos e admirados de todos os tempos —, aceitando Leopold Bloom em sua cama assim como a mítica Penélope acolheu de volta o herói da Guerra de Troia. Os mortos compreende três grandes momentos do amor na literatura, na prosa de um dos maiores escritores do século XX.

Lolô, de Grégoire Solotareff (Trad. Michaela Nanni)
O coelho Tom nunca tinha visto um lobo, e também não sabia que devia ter medo desse bicho que nós conhecemos tão bem e que aparece nas histórias como o senhor da braveza. Lolô, o lobo deste livro, também não tinha encontrado nenhum coelho na vida, tampouco sabia que deveria caçar esse animal tão bonzinho e saboroso. Assim, os dois se tornam melhores amigos e passam o dia se divertindo juntos. Mas, como sempre, uma coisa triste acontece e atrapalha tudo: Lolô inventa uma brincadeira chamada “medo-de-lobo” e assusta Tom além da conta. E agora?

Portfolio-Penguin:

Supertimes, de Khoi Tu (Trad. Peterso Rissatti)
O que a Pixar, os Rolling Stones, a Ferrari e a Cruz Vermelha têm em comum? Seu sucesso se deve a muito mais que o simples brilhantismo individual. Toda organização, seja uma empresa ou uma ONG, sobrevive ou desaparece pela qualidade de seu trabalho em equipe. A maioria dos desafios importantes exige uma reação coletiva e, embora a excelência individual seja essencial e necessária, a capacidade e a vontade de construir, liderar e trabalhar em equipe não raro representam a diferença entre sucesso e fracasso. Em Supertimes, Khoi Tu analisa os sete fatores que levam equipes a obter resultados sistematicamente extraordinários, emergindo ainda mais fortes das inevitáveis crises.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Biografia do filósofo Jacques Derrida chega ao Brasil


Na noite de 14 de agosto de 2004, exatamente um ano e três meses após receber o diagnóstico de um câncer no pâncreas, o filósofo franco-argelino Jacques Derrida embarcava em um voo com destino ao Rio de Janeiro. Dois dias depois, para um auditório lotado de brasileiros e estrangeiros, Derrida proferiu a sua última conferência: “O perdão, a verdade, a reconciliação: qual gênero?”. O ponto de partida era a África do Sul pós-apartheid e o estabelecimento da Comissão da Verdade e Reconciliação. A participação no colóquio “Derrida: pensar a desconstrução” foi sua última palestra. Ele morreria apenas dois meses depois.


Debilitado, um mês antes da viagem Derrida confidenciou ao organizador do evento e seu amigo pessoal, Evando Nascimento, que talvez não conseguisse comparecer. Nascimento, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e seu ex-aluno, o deixou à vontade, mas o filósofo decidiu comparecer. É o que conta o escritor e crítico Benoît Peeters na biografia “Derrida” (Civilização Brasileira), publicada na França em 2010 e que será lançada em uma série de eventos em São Paulo (dia 13), no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora (dia 16)) a partir de segunda-feira. No Rio, Peeters fará uma palestra na midiateca da Maison de France, no Centro, quarta-feira, dia 15, às 18h.

Para o biógrafo, a viagem foi a forma encontrada pelo maior pensador do desconstrucionismo de se sentir vivo.

— Ele estava muito doente, mas acho que Derrida se sentiria morto quando deixasse de ser ativo. Mesmo muito doente, com um câncer em fase terminal e sofrendo bastante, o fato de vir ao Brasil, participar de um colóquio inteiro, proferir uma longa conferência, responder aos debatedores, tudo isso foi a forma dele de se sentir vivo e esquecer da doença num primeiro momento. Outra coisa foi o respeito pela palavra dada — conta Peeters, em entrevista por telefone.

Arquivador obsessivo

Na biografia, Peeters descreve com riqueza de detalhes todas as etapas da vida de Derrida, desde a infância humilde na família judaica na Argélia, a chegada à França, o bloqueio sofrido na academia francesa, a consagração mundial a partir dos Estados Unidos e sua não menos intensa vida após a descoberta do câncer. Para reconstruir todos esses passos, Peeters entrevistou mais de cem pessoas que conviveram com o filósofo, reuniu todas as suas entrevistas e textos publicados na imprensa e realizou uma minuciosa pesquisa nos arquivos pessoais do pensador, divididos entre a Universidade da Califórnia, em Irvine, e o Instituto Memória das Edições Contemporâneas (IMEC), na França. Além de fazer uma busca obstinada pelas cartas trocadas pelo filósofo com amigos, jornalistas e editores espalhadas pelo mundo.

O trabalho foi recompensador pela própria relação obsessiva que Derrida mantinha com os seus arquivos, segundo o biógrafo, pois guardava até os bilhetes deixados em sua sala na École Normale Supérieure (ENS), em Paris, onde lecionou entre 1964 e 1984. Com o advento dos computadores, ele começou a produzir diversas cópias dos seus arquivos e tinha um medo terrível de perdê-los. Para Peeters, ao guardar esse rico material e mantê-lo aberto ao público, ele antecipou sua futura biografia.

— A biografia era irrepresentável para ele, pois a biografia coloca a morte. É a morte que confere sentido a uma vida e permite que esta seja considerada como um todo. Imaginar a sua biografia seria imaginar o seu próprio fim, imaginar o momento em que os outros entrarão naquilo que é mais íntimo, eventualmente com respeito, mas também com indiscrição e brutalidade.

A biografia permite compreender como a infância e a juventude no norte da África influenciaram toda a sua produção intelectual, mais notadamente a partir do final da década de 1980. O antissemitismo na colônia foi muito mais forte do que na metrópole, e Derrida e os irmãos ficaram anos proibidos de frequentar a escola.

Para Peeters, o que o marca é a falta de uma sensação de pertencimento, principalmente quando ele, aos 19 anos, é enviado a Paris para cursar o preparatório do liceu Louis-le-Grand, conhecido pelo grande índice de aprovação na ENS. No liceu, Derrida dividiu bancos e corredores com Michel Serres, Michel Deguy e Pierre Bourdieu, então jovens aspirantes como ele.

Os retornos durante as férias à Argélia foram duros. Sem se sentir francês, ele também não era mais argelino. Derrida era sempre um estrangeiro. Esse sentimento se reflete em seus trabalhos e é potencializado pelas dificuldades institucionais que enfrentou. De acordo com o biógrafo, seu pensamento radical e seu estilo de fazer filosofia, que beirava a literatura, não foram bem recebidos na academia francesa. A difusão do seu pensamento explode a partir de suas viagens a universidades americanas, onde teve calorosa recepção nos departamentos de Literatura, e depois de Direito e Belas-Artes. Apesar de preterido na sucessão de Paul Ricoeur na Universidade de Paris X-Nanterre e ter a entrada recusada no Collège de France, Derrida alcançou o posto de diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

A intensa vida intelectual do filósofo é contada no livro, incluindo as várias polêmicas com Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss, Jürgen Habermas, entre outros. Peeters recusa, entretanto, o termo “biografia intelectual”, algo considerado impossível pelo próprio Derrida, notoriamente fascinado pela vida privada dos grandes filósofos. O autor explica que quis contar “a história de um homem inserida no seu contexto e de suas ideias em movimento”, sem mimetizar o peculiar estilo derridiano.

Derrida sempre manteve uma relação tensa com a morte, que sentia como “um espanto incansável diante daquilo que nunca compreenderei ou aceitarei”. No entanto, escreveu homenagens póstumas a amigos como Roland Barthes, Gilles Deleuze, entre vários outros. Os textos foram editados no livro “The work of mourning” (“A obra do luto”, em uma tradução livre), organizado por Pascale-Anne Brault e Michael Naas e lançado nos Estados Unidos em setembro de 2003, quatro meses após a descoberta do câncer. O filósofo cedeu farto material inédito, inclusive o que leu na cremação de Maurice Blanchot, em fevereiro daquele ano. Para amigos, Derrida apontava o dia da cerimônia como a origem simbólica da doença que o mataria.