sábado, 18 de maio de 2013

Jérôme Ferrari estará na Flip de Paraty em Julho

De Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo

As civilizações cumprem um ciclo semelhante à vida humana: nascem, conhecem o apogeu e definham até a morte. Tal máxima vale tanto para o Império Romano, que desabou no ano de 410, como para a União Soviética, cujo poderio se extinguiu simbolicamente com as primeiras marretadas que derrubaram o muro de Berlim, em 1989. "Sempre me interessei por esses desastres silenciosos, em que a corrosão só se torna evidente quando o edifício inteiro finalmente rui", comenta o escritor francês Jérôme Ferrari, um dos principais destaques estrangeiros da próxima Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que ocorre entre 3 e 7 de julho, na cidade fluminense.

Ferrari é professor de filosofia em Abu Dabi: para ele, a literatura é sua melhor forma de expressão - Divulgação
Aos 45 anos, tornou-se uma celebridade das letras no ano passado, quando seu livro O Sermão Sobre a Queda de Roma ganhou o Goncourt, o mais prestigioso prêmio francês. A obra chega agora ao Brasil sob a chancela da Editora 34, que inicia, assim, em alto estilo, sua Coleção Fábula - o próximo volume será uma nova tradução de Cândido, de Voltaire. E, em julho, será a vez de Carmen, de Prosper Mérimée.

"Trata-se de um selo que vai reunir textos que reúnem prosa, poesia e pensamento", define Samuel Titan Jr., coordenador da coleção e também tradutor de alguns títulos, como O Sermão Sobre a Queda de Roma. "Li o original em uma viagem de avião e fiquei tão encantado com a escrita de Ferrari que decidi assumir a versão em português."
Não foi uma tarefa fácil - com uma linguagem torturada (como observou o jornal francês Figaro), Jérôme Ferrari oferece uma reflexão sobre o declínio do mundo ocidental a partir da história de dois amigos de infância, Matthieu e Libero, que resolvem abandonar os estudos de filosofia em Paris para se lançar em uma aventura aparentemente fadada ao fracasso: assumir o controle do único bar de uma vila na Córsega. Na verdade, as confusões etílicas da dupla compõem algumas das diversas histórias do romance, que vão de Paris a Argel, da Indochina francesa às antigas colônias na África.
Em outro ponto da narrativa, o leitor acompanha a tortura mental de um idoso, Marcel Antonetti, que, logo no início da trama, é descoberto mirando com tristeza uma velha fotografia de família, pobre relíquia de uma França devastada pela 1ª Guerra Mundial. Sua memória só reteve momentos tenebrosos, sucessão de fracassos pessoais e profissionais.
"A fusão e o conflito desses dois veios fazem vibrar o microcosmo do romance", afirma o escritor e cronista do Caderno 2 Milton Hatoum, no texto de apresentação. "Escrevendo numa linguagem muito pessoal e trabalhada, que alterna frases longas e falas brevíssimas,Ferrari compõe uma narrativa circular e vertiginosa. O ápice vem com o sermão final, momento de bela prosa oratória que põe o romance sob o signo da sentença agostiniana: o mundo é como o homem - nasce, cresce e morre."
A referência não é gratuita. Ferrari não esconde a grande influência do Sermão 81, de Santo Agostinho (354-430), especialmente por utilizar a queda de Roma como forma de expressar sua desilusão com o enfraquecimento do Cristianismo como religião unificadora. "Foi a leitura do trecho desse sermão que me inspirou", disse Ferrari ao Estado, por telefone, desde Abu Dabi, capital dos Emirados Árabes, onde leciona filosofia. "Ele dizia que não deveríamos ficar surpresos com o desaparecimento de Roma, pois o mundo é como o homem, que nasce, cresce e morre. Isso não só me motivou como se transformou na epígrafe do meu livro."
Ele conta que o projeto estava engavetado fazia anos, com o título provisório de Os Mundos. "O que pretendi em Sermão era oferecer um resposta inovadora para a pergunta: 'O que é o mundo?'", explica. "Busquei criar várias camadas enquanto pensava no filósofo alemão Leibniz para quem, em cada mundo, há um número infinito de elementos. Ou seja, tanto pode ser Roma e seu império decadente como o bar de uma aldeia erma, cenário do meu romance. Realmente levo a sério as palavras de Santo Agostinho, pois a trama se constrói a partir do nascimento de um mundo representado por diversos personagens, que atingem um apogeu até chegar sua derrocada. Acredito existir uma coerência mecânica, um ciclo de lógica, que regem o funcionamento do romance."
Apesar de a filosofia ser o seu ganha-pão, Ferrari não a utiliza como ferramenta ao escrever ficção. "Não sou um filósofo de fato por conta da incapacidade de criar conceitos - não bastam opiniões racionais. Assim, a literatura é minha melhor forma de expressão", confessa. "Parece-me que não podemos conceber um bom romance em que os personagens são apenas a máscara de um conceito ou uma crença ideológica, moral etc. Por conta disso, adoro romances metafísicos, eu me inspiro em escritores como Dostoievski e Styron, que mapeiam com sensibilidade a alma humana. O romance tem, na minha opinião, uma vantagem sobre a filosofia ao refletir melhor a complexidade da realidade, sem se preocupar com as exigências da lógica."
Bom conhecedor de literatura, Ferrari desconhece, porém, o trabalho de qualquer autor brasileiro. "Minha cultura latino-americana se resume aos de língua espanhola, como García Márquez, Borges e Cortázar. E é irônico que minha primeira visita ao continente seja justamente no Brasil - será minha chance de redenção."

terça-feira, 14 de maio de 2013

Lançamentos da semana



O diabo no corpo, de Raymond Radiguet (Trad. Paulo César de Souza)
Em meio ao sofrimento das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a jovem esposa de um soldado em batalha inicia um caso com um adolescente de dezesseis anos, o narrador deste O diabo no corpo. O envolvimento entre os dois vai se tornando mais sério. Ela engravida. O falatório começa a se espalhar pela vizinhança. O cerco se fecha sobre os amantes. Um final trágico se anuncia. Quando publicado pela primeira vez, em 1923, o livro de estreia de Raymond Radiguet causou sensação nos círculos letrados de Paris — em parte por se tratar da produção de um prodígio, escrita quando seu autor tinha dezessete anos, em parte porque foi considerado uma obra-prima por autores como Jean Cocteau. Com tradução e posfácio de Paulo César de Souza, esta novela foi o único sucesso que Radiguet conheceu em vida. O autor faleceu poucos meses depois, de febre tifoide, aos vinte anos de idade.

Dix & Bisteca, de Rita Vidal e Alexandre Barbosa de Souza
Bisteca tem cor de caramelo, é vegetariano e passa horas a fio contemplando o vazio. Dix é preto, carnívoro e adora comer a ponta emborrachada dos grampos de cabelo. Do convívio apaixonado com os dois gatos e da observação fina de tantas manias curiosas nasceu este livro, que nos apresenta os dois felinos a partir de poemas inesperados e lindas ilustrações feitas com antigos papéis de parede.

Nova antologia pessoal, de Jorge Luis Borges (Trad. Davi Arrigucci Jr, Heloisa Jahn, Josely Vianna Baptista)
Nova antologia pessoal foi organizada pelo próprio Borges e publicada pela primeira vez em 1968. Em sua vasta atividade crítica, a organização de inúmeras antologias teve papel decisivo. Por meio delas, com os achados e a seleção de sua alta inteligência, fecundou seu ambiente literário, abrindo-o para traduções inéditas. Suscitou o diálogo com textos raros, desconhecidos ou reinventados; renovou o repertório dos autores considerados clássicos. Como antologista da própria obra, Borges não foi menos rigoroso. Tinha autocrítica severa com relação aos poemas da primeira juventude e vivia a reescrever os próprios textos. Esse trabalho pode ser visto na Antologia pessoal, originalmente de 1961, publicada pela Companhia das Letras na coleção Biblioteca Borges em 2008, e agora na Nova antologia pessoal. Mais generosa que a primeira, a Nova antologia traz um volume maior de textos e assuntos. A perplexidade metafísica, a memória dos mortos que se perpetua nos poemas, as imagens cifradas de uma língua pretérita, a linguagem, a pátria, o destino paradoxal dos poetas — esses e vários outros temas são nela recorrentes. A exemplo da anterior, esta antologia forma um caleidoscópio, em que pedacinhos de vidro recombináveis fantasiam as múltiplas faces da totalidade.

Os mortos, de James Joyce (Trad. Caetano W. Galindo)
Para um explorador da alma humana como James Joyce, o amor jamais poderia deixar de ser um tema de interesse. E, como não poderia deixar de ser no caso de um autor capaz de esmiuçar como ninguém a vida interior de seus personagens, suas visões sobre a experiência amorosa se descortinam por meio de reflexões reveladoras, suas tão comentadas epifanias. Como a de Gabriel Conroy — de “Os mortos”, conto que encerra a coletânea Dublinenses —, que numa festa descobre fatos novos sobre a vida afetiva pregressa da esposa e a partir de então começa a repensar sua relação conjugal e até mesmo seu próprio conceito de amor. Ou a epifania do protagonista de “Arábias”, outro conto do mesmo volume, um garoto que, incapaz de encontrar num bazar um presente para a menina por quem é apaixonado, descobre a falsidade por trás da ideia da idealização do amor romântico. Ou ainda a do célebre “sim” de Molly Bloom ao final de seu monólogo no último capítulo de Ulysses — um dos solilóquios mais lidos e admirados de todos os tempos —, aceitando Leopold Bloom em sua cama assim como a mítica Penélope acolheu de volta o herói da Guerra de Troia. Os mortos compreende três grandes momentos do amor na literatura, na prosa de um dos maiores escritores do século XX.

Lolô, de Grégoire Solotareff (Trad. Michaela Nanni)
O coelho Tom nunca tinha visto um lobo, e também não sabia que devia ter medo desse bicho que nós conhecemos tão bem e que aparece nas histórias como o senhor da braveza. Lolô, o lobo deste livro, também não tinha encontrado nenhum coelho na vida, tampouco sabia que deveria caçar esse animal tão bonzinho e saboroso. Assim, os dois se tornam melhores amigos e passam o dia se divertindo juntos. Mas, como sempre, uma coisa triste acontece e atrapalha tudo: Lolô inventa uma brincadeira chamada “medo-de-lobo” e assusta Tom além da conta. E agora?

Portfolio-Penguin:

Supertimes, de Khoi Tu (Trad. Peterso Rissatti)
O que a Pixar, os Rolling Stones, a Ferrari e a Cruz Vermelha têm em comum? Seu sucesso se deve a muito mais que o simples brilhantismo individual. Toda organização, seja uma empresa ou uma ONG, sobrevive ou desaparece pela qualidade de seu trabalho em equipe. A maioria dos desafios importantes exige uma reação coletiva e, embora a excelência individual seja essencial e necessária, a capacidade e a vontade de construir, liderar e trabalhar em equipe não raro representam a diferença entre sucesso e fracasso. Em Supertimes, Khoi Tu analisa os sete fatores que levam equipes a obter resultados sistematicamente extraordinários, emergindo ainda mais fortes das inevitáveis crises.