segunda-feira, 20 de maio de 2013

Lançamentos de maio



Editora Companhia das letras


Frank: a voz, de James Kaplan (Trad. Pedro Maia Soares)
Muito antes de Elvis Presley e dos Beatles sonharem com os primeiros acordes, ele provocava histeria em multidões de adolescentes enlouquecidas que dormiam na porta do teatro para ver, rever e desmaiar diante do ídolo. Fenômeno da nascente cultura de massa nos anos 1930 e 1940, Frank Sinatra sabia como rechear de paixão as baladas que cantava, enquanto seus assessores de imprensa produziam o clima na plateia. Mas ele era muito mais que isso: músico de ouvido requintado, estudava minuciosamente as letras, aprimorava a dicção e a musicalidade de modo a transmitir todo o sentido das canções; perfeccionista, nenhum detalhe de uma gravação lhe escapava. Neste livro, que acompanha os primeiros quarenta anos da vida de Sinatra, James Kaplan narra em cinco atos dramáticos a ascensão, a queda e o renascimento de uma figura contraditória, com qualidades e muitos defeitos — os próprios amigos o chamavam pelas costas de “Monstro” —, mas de inegável (e impressionante) talento musical, que deu forma definitiva ao cancioneiro norte-americano. Com mão de romancista, o autor utiliza de forma ousada técnicas da ficção para penetrar na alma e na mente de seu biografado e recriar sua personalidade. O resultado é uma narrativa pontuada pela emoção genuína e pelo drama real de um homem que cresceu ao lado da máfia, não mediu esforços para construir sua carreira, cobiçou e foi cobiçado por muitas mulheres, viveu uma tempestuosa história de amor com o furacão Ava Gardner, teve sua morte artística anunciada e renasceu para a glória no cinema e na música.


Nada a invejar, de Barbara Demick (Trad. José Geraldo Couto)
A vida na Coreia do Norte, sob um dos regimes mais fechados do mundo, parecia impenetrável aos olhos estrangeiros até o surgimento deste livro. Nele, a jornalista americana Barbara Demick traça um painel vívido da sociedade norte-coreana a partir de uma extensa pesquisa e, principalmente, dos depoimentos de refugiados dissidentes que ela entrevistou durante o período em que trabalhou como correspondente do Los Angeles Times em Seul, na Coreia do Sul. Nas dramáticas trajetórias pessoais narradas aqui, o culto obrigatório à personalidade dos ditadores, as crises de escassez e o controle do cotidiano dos cidadãos configuram uma realidade sufocante; porém, mesmo num universo tão autoritário, é possível perceber as brechas para o humor, os atos de heroísmo e a solidariedade.


A morte do pai, de Karl Ove Knausgård (Trad. Leonardo Pinto Silva)
Uma noite de ano-novo e rebeldia, regada a cervejas vedadas aos menores, um amasso nauseante na primeira namorada, um show fracassado com a banda de punk no shopping center — em A morte do pai, primeiro romance da série autobiográfica Minha Luta, Karl Ove Knausgård se concentra em narrar os anos de sua juventude. Ao embarcar numa investigação proustiana e incansável do próprio passado, o narrador busca reconstruir, sobretudo, a trajetória do pai, figura distante e insondável que entra em declínio e leva o núcleo familiar à ruína. Honesto e sensível, Knausgård investiga também o próprio presente: aos 39 anos, pai de três filhos, ele deve se ajustar à rotina em família, trocar fraldas e apartar brigas, tudo isso enquanto tenta escrever seu novo romance, numa luta diária. Com A morte do pai, Knausgård inaugura um projeto monumental e ambicioso, que logo se tornou best-seller na Noruega e fenômeno literário internacional. São seis volumes híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea.


sábado, 18 de maio de 2013

Jérôme Ferrari estará na Flip de Paraty em Julho

De Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo

As civilizações cumprem um ciclo semelhante à vida humana: nascem, conhecem o apogeu e definham até a morte. Tal máxima vale tanto para o Império Romano, que desabou no ano de 410, como para a União Soviética, cujo poderio se extinguiu simbolicamente com as primeiras marretadas que derrubaram o muro de Berlim, em 1989. "Sempre me interessei por esses desastres silenciosos, em que a corrosão só se torna evidente quando o edifício inteiro finalmente rui", comenta o escritor francês Jérôme Ferrari, um dos principais destaques estrangeiros da próxima Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que ocorre entre 3 e 7 de julho, na cidade fluminense.

Ferrari é professor de filosofia em Abu Dabi: para ele, a literatura é sua melhor forma de expressão - Divulgação
Aos 45 anos, tornou-se uma celebridade das letras no ano passado, quando seu livro O Sermão Sobre a Queda de Roma ganhou o Goncourt, o mais prestigioso prêmio francês. A obra chega agora ao Brasil sob a chancela da Editora 34, que inicia, assim, em alto estilo, sua Coleção Fábula - o próximo volume será uma nova tradução de Cândido, de Voltaire. E, em julho, será a vez de Carmen, de Prosper Mérimée.

"Trata-se de um selo que vai reunir textos que reúnem prosa, poesia e pensamento", define Samuel Titan Jr., coordenador da coleção e também tradutor de alguns títulos, como O Sermão Sobre a Queda de Roma. "Li o original em uma viagem de avião e fiquei tão encantado com a escrita de Ferrari que decidi assumir a versão em português."
Não foi uma tarefa fácil - com uma linguagem torturada (como observou o jornal francês Figaro), Jérôme Ferrari oferece uma reflexão sobre o declínio do mundo ocidental a partir da história de dois amigos de infância, Matthieu e Libero, que resolvem abandonar os estudos de filosofia em Paris para se lançar em uma aventura aparentemente fadada ao fracasso: assumir o controle do único bar de uma vila na Córsega. Na verdade, as confusões etílicas da dupla compõem algumas das diversas histórias do romance, que vão de Paris a Argel, da Indochina francesa às antigas colônias na África.
Em outro ponto da narrativa, o leitor acompanha a tortura mental de um idoso, Marcel Antonetti, que, logo no início da trama, é descoberto mirando com tristeza uma velha fotografia de família, pobre relíquia de uma França devastada pela 1ª Guerra Mundial. Sua memória só reteve momentos tenebrosos, sucessão de fracassos pessoais e profissionais.
"A fusão e o conflito desses dois veios fazem vibrar o microcosmo do romance", afirma o escritor e cronista do Caderno 2 Milton Hatoum, no texto de apresentação. "Escrevendo numa linguagem muito pessoal e trabalhada, que alterna frases longas e falas brevíssimas,Ferrari compõe uma narrativa circular e vertiginosa. O ápice vem com o sermão final, momento de bela prosa oratória que põe o romance sob o signo da sentença agostiniana: o mundo é como o homem - nasce, cresce e morre."
A referência não é gratuita. Ferrari não esconde a grande influência do Sermão 81, de Santo Agostinho (354-430), especialmente por utilizar a queda de Roma como forma de expressar sua desilusão com o enfraquecimento do Cristianismo como religião unificadora. "Foi a leitura do trecho desse sermão que me inspirou", disse Ferrari ao Estado, por telefone, desde Abu Dabi, capital dos Emirados Árabes, onde leciona filosofia. "Ele dizia que não deveríamos ficar surpresos com o desaparecimento de Roma, pois o mundo é como o homem, que nasce, cresce e morre. Isso não só me motivou como se transformou na epígrafe do meu livro."
Ele conta que o projeto estava engavetado fazia anos, com o título provisório de Os Mundos. "O que pretendi em Sermão era oferecer um resposta inovadora para a pergunta: 'O que é o mundo?'", explica. "Busquei criar várias camadas enquanto pensava no filósofo alemão Leibniz para quem, em cada mundo, há um número infinito de elementos. Ou seja, tanto pode ser Roma e seu império decadente como o bar de uma aldeia erma, cenário do meu romance. Realmente levo a sério as palavras de Santo Agostinho, pois a trama se constrói a partir do nascimento de um mundo representado por diversos personagens, que atingem um apogeu até chegar sua derrocada. Acredito existir uma coerência mecânica, um ciclo de lógica, que regem o funcionamento do romance."
Apesar de a filosofia ser o seu ganha-pão, Ferrari não a utiliza como ferramenta ao escrever ficção. "Não sou um filósofo de fato por conta da incapacidade de criar conceitos - não bastam opiniões racionais. Assim, a literatura é minha melhor forma de expressão", confessa. "Parece-me que não podemos conceber um bom romance em que os personagens são apenas a máscara de um conceito ou uma crença ideológica, moral etc. Por conta disso, adoro romances metafísicos, eu me inspiro em escritores como Dostoievski e Styron, que mapeiam com sensibilidade a alma humana. O romance tem, na minha opinião, uma vantagem sobre a filosofia ao refletir melhor a complexidade da realidade, sem se preocupar com as exigências da lógica."
Bom conhecedor de literatura, Ferrari desconhece, porém, o trabalho de qualquer autor brasileiro. "Minha cultura latino-americana se resume aos de língua espanhola, como García Márquez, Borges e Cortázar. E é irônico que minha primeira visita ao continente seja justamente no Brasil - será minha chance de redenção."