domingo, 30 de junho de 2013

Para ler e ouvir a voz das ruas

Publicado no Estadão literatura
Povo na rua é sinônimo de contestação da ordem estabelecida, desde que o mundo é mundo. E é também assunto de livro. O assunto é tão vasto que rios de tinta correram e florestas de papel caíram para que fosse explicado. Ou que tentassem explicá-lo. A mais famosa manifestação de rua dos tempos recentes – o maio de 1968 – foi descrita, analisada e esmiuçada em incontável bibliografia. Normal, mesmo porque aconteceu na terra em que uma manifestação de rua, em aparência de pouco alcance, que culminou a tomada da Bastilha, teve consequências imensas e em todo o Ocidente. A Revolução Francesa, que custou a cabeça de reis e mudou a face da História Ocidental, começou com a tomada de uma velha prisão, na qual restavam apenas sete presos, segundo contam as crônicas da época. Quem quiser se informar sobre esses fatos não tem melhor caminho que ler as obras do historiador inglês Eric Hobsbawm em A Era das Revoluções (Cia das Letras).
O mesmo Hobsbawm se debruça sobre o maio francês em um livro mais abrangente, A Era dos Extremos, que versa sobre o que ele definiu como “século breve”, o século 20, que teria começado, na verdade, no começo da 1ª Guerra Mundial em 1914, e terminado com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Entre as duas datas, o maio de 68, que Hobsbawm analisa como um período de “aceleração da História”, um episódio limitado no tempo, e, em aparência, fracassado.
Na ocasião, estudantes da Sorbonne e de Nanterre defendiam reivindicações específicas da classe estudantil. Mas o protesto ampliou-se e o movimento se diversificou. Os operários franceses da Renault e outras empresas entraram no movimento e decretaram greve. O país parou. Quem quiser entender a época pode se beneficiar de clássico do filósofo alemão Herbert Marcuse, Eros e Civilização, que era uma espécie de manual de vida da moçada 68. Marcuse retoma conceitos freudianos para entender como a repressão sexual podia servir à dominação política. E, como, por extensão, a liberação sexual acompanha o pensamento libertário em política.
Mas há inúmeros outros livros que podem dar ideia do período, revivendo-lhes o clima e motivações. Em 68: Paris, Praga, México (Rocco), o escritor mexicano Carlos Fuentes rememora sua vivência nesse tempo de rebeldia. Maio de 68 (Azougue), organizado por Sérgio Cohn e Heyk Pimenta, traz textos antológicos, como a entrevista de Jean-Paul Sartre com Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento,
Cohn-Bendit, ou Danny, Le Rouge, alemão de origem porém residente em Paris nos anos 60, tornou-se um dos principais líderes da época. Mais tarde converteu-se ao Partido Verde e publicou um livro relativizando o movimento, Forget 68 (Éditions de l’Aube). Para ele, é tão irrelevante fazer de conta que 68 não existiu, como queria o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, ou insistir em realizar as promessas de 68, como insiste ainda parte da esquerda. Difícil mesmo de realizar porque, das pautas específicas, os estudantes passaram a exigir “a imaginação no poder” e outras coisas mais. Sonhava-se alto naquele tempo. O que havia começado nas ruas terminara por acuar o governo de Charles De Gaulle que, no entanto, deu a volta por cima e levou a melhor. Prevaleceu o conservadorismo francês. Mas os avanços dessa revolução falhada foram permanentes e se deram mais no campo do comportamento e das artes.
Na mesma época, o Brasil vivia situação semelhante à francesa, com uma diferença importante. Lá, como cá, os estudantes foram às ruas protestar. Mas se na França havia o estado de direito garantido, aqui vivia-se sob a ditadura implantada em 1964. Algumas manifestações ficaram famosas, como a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, e ocupação da Rua Maria Antonia, onde ficava a Faculdade de Filosofia da USP. Em 1968 – o ano que Não Terminou (Cia das Letras), o jornalista Zuenir Ventura capta o clima da época em narrativa empolgante. Aliás, a Rua Maria Antonia era uma espécie de Quartier Latin paulistano. Era o centro nervoso da agitação estudantil e foi lá que se deu o célebre confronto entre os alunos do Mackenzie e da USP. Sobre o assunto há o livro Maria Antônia – História de uma Guerra, do jornalista Gilberto Amêndola.
As Diretas-Já em 1984 e o e os caras-pintadas em 1992 tinham finalidades específicas – a transição democrática e o impeachment de Collor. A derrota num caso e a vitória, no outro, os esgotaram.
Há que lembrar, também, que nem sempre as multidões trazem as boas novas e as boas causas. O fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha reuniram manifestações imensas. Algumas passeatas no Brasil ajudaram a derrubar um presidente eleito. Para entender essa “pulsão” interna das manifestações, a euforia orgástica que provoca nas pessoas e os nada raros episódios de violência a elas associados, nada melhor do que os clássicos – Psicologia de Massas e Análise do Eu, de Sigmund Freud, e Psicologia de Massas do Fascismo, do dissidente da psicanálise Wilhelm Reich.
Os textos clássicos ajudam a entender os movimentos contemporâneos, mas é preciso notar que eles têm sua especificidade, sobretudo na forma de organização. Se antes uma passeata demandava esforço de planejamento longo e minucioso, hoje ela pode ser convocada pelas redes sociais, o que explica o espontaneísmo, o voluntarismo e as pautas fragmentárias, que aliás vão se modificando de um dia para outro.
Os recentes movimentos de rua no Brasil devam ser aproximados a similares como o Occupy Wall Street, os da Praça Tahrir, no Egito, os “indignados” da Espanha, França, Portugal, Grécia, a Primavera Árabe, alguns deles vinculados de maneira direta à crise econômica europeia. Outros a circunstâncias específicas de seus países. O nosso há de ter também a sua identidade, ainda por encontrar. Em todo caso, um dos estudiosos desses movimentos, o sociólogo britânico Paolo Gerbaudo, estudou essa nova modalidade de presença nas ruas. Sustenta que os movimentos de hoje são menos políticos do que os dos anos 60, e vagamente “contra o sistema”. Não têm líderes carismáticos. São organizados pelo Facebook e pelo Twitter. Questões pontuais tornam-se estopins de outras causas coligadas. Seu livro Tweets and the Streets: Social Media and Contemporary Activism (Pluto Books, London, 2012) é uma bíblia contemporânea sobre a questão.
Se os movimentos atuais necessitam de explicação, talvez também precisem de um panfleto. Ele já está escrito. Legou-o o ativista francês Stéphane Hessel (1917-2013), que o escreveu aos 93 anos . Chama-se Indignem-se. Nele, Hessel defende que a principal causa atual está ligada à defesa da liberdade. Não à liberdade de consumir, mas à liberdade política, que se constrói etapa por etapa. Pede “uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa que propõem como horizonte único para nossa juventude o consumo de massa, o desprezo pelos mais fracos e a competição sem mercê de todos contra todos”. Termina legando aos jovens “que farão o século 21”, esta frase simples: “Criar é resistir, Resistir é criar”.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Lançamentos da semana


Editora Companhia das letras


Campo em branco, de Emilio Fraia e DW Ribatski
Dois irmãos separados pelo tempo e pelo espaço, se reencontram numa cidade estrangeira. Não sabemos ao certo onde estão, tampouco conhecemos os caminhos que os fizeram chegar ali. Lucio, o mais novo, tenta entender o que o mais velho, Mirko, quer com ele. A ideia é refazer uma viagem da infância de ambos, quando visitaram com um tio uma cidade nas montanhas. Narrado por Lucio, o episódio se mescla a lembranças e, principalmente, a tudo aquilo que ele não consegue lembrar ou compreender — as imagens evocadas parecem escapar, como a dor fantasma de um braço amputado. Numa trama sobre família e memória, o escritor Emilio Fraia e o quadrinista DW Ribatski criam uma narrativa de estranhamento, cujo centro parece nunca se revelar. A arte vibrante de Ribatski e os temas enigmáticos de Fraia combinam-se num road movie às avessas, em que a viagem só começa quando podemos reconstruí-la, desmontá-la, inventá-la.


A mão invisível, de Adam Smith (Trad. Paulo Geiger)
Originalmente publicado em 1776, mesmo ano da Declaração da Independência dos Estados Unidos, A riqueza das nações é o texto mais influente do filósofo e economista escocês Adam Smith (1723-1790), autor central do liberalismo e um dos fundadores da economia política. Nesta seleção extraída de seu opus magnum, Smith investiga a natureza das trocas financeiras e comerciais responsáveis pelo enriquecimento dos indivíduos e dos Estados, bem como os ganhos revolucionários proporcionados pela divisão do trabalho na produção de manufaturas. Escrito na aurora da era industrial, o livro aponta para a existência de uma “mão invisível” — espécie de força autorreguladora intrínseca aos agentes do sistema capitalista — que garantiria o funcionamento equilibrado dos mercados de dinheiro, bens e serviços.

Boa-noite, girafa, de David Grossman (Trad. George Schlesinger)
Às vezes ficamos tanto tempo no banho que saímos meio transformados. O pai da Ruth, por exemplo, certa noite tira uma grande girafa japonesa da banheira. Mas ela está rindo e aquela voz não parece de girafa. Para se certificar, ele vai checando parte por parte do corpinho escondido embaixo da toalha… Nesta narrativa despretensiosa e acolhedora sobre uma brincadeira que todos os pequenos gostam de fazer, o premiado autor David Grossman diverte adultos e crianças. Certa vez, sobre suas histórias infantis, ele disse que seu objetivo era “escrever textos em que as crianças se sentissem em casa” — e foi exatamente isso que fez em Boa-noite, girafa.

Editora Paralela

O fator Scarpetta, de Patricia Cornwell (Trad. Renata Guerra)
Falta uma semana para o Natal. A economia americana do pós­-crise custa a se recuperar. Diante de um cenário tão desalentador, a dra. Kay Scarpetta resolve oferecer seus serviços pro bono ao Instituto Médico Legal de Nova York. Mas sua crescente exposição na mídia parece antecipar uma série de eventos inesperados e perturbadores. Ao vivo na CNN, ela é questionada sobre o estranho caso de Hannah Starr, uma bela milionária desaparecida desde a véspera do Dia de Ação de Graças. Durante a mesma transmissão, Scarpetta recebe uma ligação de uma antiga paciente psiquiátrica de Benton Wesley, que parece estar obcecada pelo casal. No mesmo dia, ao voltar para casa depois do programa, um pacote suspeito — possivelmente contendo uma bomba — é deixado aos cuidados seus. Rapidamente, a suposta ameaça à vida de Scarpetta a envolve numa rede surreal de acontecimentos em que se encontram um famoso ator acusado de um crime sexual inacreditável e o desaparecimento de uma ricaça que parece partilhar um passado secreto com Lucy, a sobrinha preferida de Kay. Complicando ainda mais a trama, o produtor de Scarpetta na CNN tenta persuadi-la a estrear um programa de TV chamado “O fator Scarpetta”. Diante de tantos acontecimentos bizarros, ela teme que sua fama resulte na ilusão de que ela realmente tem um “fator especial”, uma habilidade mística que a auxilia na resolução dos casos.

Editora Seguinte

Laços de sangue, de Richelle Mead (Trad. Ana Ban)
O trabalho de Sidney Sage não é nada fácil: ela e seus colegas alquimistas são os únicos a saber que vampiros existem para além das telas de cinema — e são uma ameaça real à humanidade. Para manter a ordem, eles devem impedir que esse segredo vaze e que os mortais se aproximem desses seres perigosíssimos. Agora a paz que os alquimistas vêm garantindo há tempos está prestes a desabar, e Sydney terá de proteger a princesa vampira Jill Dragomir, ou uma guerra pelo trono eclodirá no mundo dos vampiros e trará consequências avassaladoras para os homens. No entanto, defender alguém que até então era alvo de seu desprezo será mais difícil do que Sydney imaginava…
Na série Bloodlines há personagens antigos da Academia de Vampiros e outras caras novas. Desta vez, o cenário é o mundo dos humanos, onde os riscos são ainda maiores e todos estão em busca de sangue.