O italiano Primo Levi, um dos principais cronistas do Holocausto, toca no delicado tema da memória no livro Os Afogados e os Sobreviventes, recentemente reeditado no Brasil. Delicado especialmente por se tratar da lembrança do massacre dos judeus na Segunda Guerra Mundial, pois os insidiosos negacionistas, aqueles que se dedicam a desmoralizar a lembrança desse crime inominável, apostam na confusão e nas lacunas dos testemunhos para desmoralizá-los. No entanto, Levi, ele mesmo um sobrevivente, teve a coragem de expor os problemas relativos ao discurso daqueles que conseguiram escapar do genocídio.
Em primeiro lugar, Levi informa que nenhum sobrevivente é capaz de relatar a dimensão total da tragédia humana que testemunharam. Se sobreviveram, é o que ele diz, então é porque não foram fundo o bastante – isto é, não se afogaram. A história dos campos foi escrita “quase exclusivamente por aqueles que, como eu próprio, não tatearam o fundo”.
